Estamos realmente a viver a nossa própria vida?
Há uma pergunta simples que pode ser profundamente transformadora: a vida que estou a viver é realmente a minha?
Muitas das nossas escolhas parecem ser nossas, mas podem estar condicionadas por expectativas familiares, normas sociais, medo de desiludir, necessidade de aprovação ou pela ideia de quem “devíamos” ser.
A investigação em psicologia tem mostrado que o bem-estar não depende apenas de nos sentirmos felizes. A Teoria da Autodeterminação, desenvolvida por Edward Deci e Richard Ryan, identifica três necessidades psicológicas fundamentais para o funcionamento saudável: autonomia, competência e relacionamento. Quando estas necessidades são satisfeitas, tendemos a apresentar maior motivação, bem-estar e funcionamento psicológico.
Autonomia não é fazer tudo sozinho
Ser autónomo não significa ser independente de toda a gente.
Significa sentir que as nossas escolhas são verdadeiramente nossas.
Posso ter um emprego, uma relação, uma família e uma vida aparentemente bem-sucedida e, ainda assim, sentir que estou a viver segundo um guião que não escrevi.
Por exemplo:
“Aceitei este trabalho porque era uma excelente oportunidade.”
Mas será que o queria realmente ou precisava de provar alguma coisa?
“Continuo nesta relação porque não quero magoar ninguém.”
Mas onde fico eu nessa decisão?
“Tenho de conseguir fazer tudo.”
Mas essa exigência vem dos meus valores ou da necessidade de corresponder às expectativas dos outros?
Estas perguntas não significam que devemos abandonar responsabilidades ou tomar decisões impulsivas. Significam apenas que vale a pena perceber de onde vêm as nossas escolhas.
A competência: sentir que sou capaz
A segunda necessidade identificada pela Teoria da Autodeterminação é a competência: a experiência de sermos capazes de aprender, evoluir e produzir efeitos no mundo.
Não precisamos de ser excelentes para nos sentirmos competentes.
Precisamos de experimentar progresso.
Uma pessoa que diz:
“Eu não sou capaz de falar em público.”
pode começar por:
“Ainda não me sinto confortável a falar em público, mas posso aprender.”
Esta pequena mudança de linguagem altera a relação com a experiência: deixa de existir uma identidade fixa e passa a existir possibilidade de desenvolvimento.
E precisamos dos outros
A terceira necessidade é a relação: sentir ligação, pertença e vínculos significativos.
O desenvolvimento pessoal não acontece no isolamento.
Precisamos de pessoas com quem possamos ser nós próprios, relações onde exista escuta, respeito e reciprocidade.
Aliás, investigação recente continua a explorar como a satisfação destas necessidades se relaciona com bem-estar, motivação e qualidade das relações.
Um exercício de autoconhecimento
Hoje, experimente responder, sem pensar demasiado:
1. Autonomia
Que decisão da minha vida estou a tomar mais para corresponder às expectativas dos outros do que por escolha própria?
2. Competência
Em que área da minha vida gostaria de me sentir mais capaz? Qual é o primeiro pequeno passo?
3. Relação
Com quem posso ser verdadeiramente eu? Que relação gostaria de nutrir mais?
4. Medo
Se não tivesse medo de desiludir ninguém, o que escolheria?
Talvez a resposta não implique uma grande mudança.
Talvez seja simplesmente dizer “não”.
Pedir ajuda.
Começar algo novo.
Terminar aquilo que já não faz sentido.
Descansar.
Voltar a estudar.
Ou permitir-se querer alguma coisa sem precisar de justificar esse desejo.
Desenvolvimento pessoal não é tornar-nos outra pessoa
Talvez seja precisamente o contrário.
É aproximarmo-nos cada vez mais da pessoa que somos quando deixamos de viver em função do que esperam de nós.
A investigação sobre bem-estar distingue também entre simplesmente sentirmo-nos bem e vivermos bem, uma vida com sentido, coerente com os nossos valores e na qual sentimos que estamos a participar ativamente.
É aqui que o desenvolvimento pessoal deixa de ser apenas uma procura de felicidade.
Passa a ser uma pergunta muito mais profunda:
Estou a construir uma vida que faz sentido para mim?
E talvez esta seja uma das formas mais importantes de autoliderança: ter coragem para escolher a nossa própria vida.

